Talvez você já tenha se deparado com o termo norte americano Homeschooling, ou com sua tradução “Educação Domiciliar” (ED) e se pergunte o que isso significa.

Ou talvez você até conheça alguma família cujos filhos não vão para a escola, mas estudam em casa e sinta curiosidade de saber como funciona. Bom, deixe-me começar pelo que a Educação Domiciliar não é.

ED não é privar seus filhos de uma boa educação e deixá-los ignorantes;

ED não é trancar seus filhos em casa e não permitir que tenham contato com outras pessoas ou visões de mundo;

ED não é fazer seu filho estudar 24 horas por dia e deixar de brincar.

Por fim, ED não é expor seus filhos ao risco de algo que não sabemos qual será o resultado.  

Agora que já sabemos o que não é ED, vamos descobrir o que é.

ED é uma alternativa para educação escolar. Embora possa parecer óbvio que parte da educação sempre aconteceu em casa, no seio da família, o termo Educação Domiciliar na verdade se refere àquele tipo de educação que a maioria das crianças hoje recebe da escola – matemática, português, geografia, história… – , ou seja, o ensino. Assim, quando dizemos Educação Domiciliar estamos nos referindo a uma modalidade de ensino, uma alternativa para a educação escolar, assim como EAD (Educação à Distância), por exemplo. É uma maneira diferente de cumprir a lei que fala que as crianças têm direito à Educação. Mas, assim como existem escolas boas e escolas fracas, existem boas EDs e EDs medíocres.

ED é algo já testado e validado. A prática já é regulamentada em mais de sessenta países, sendo os EUA os mais conhecidos. Trata-se de uma educação mais abrangente do que apenas ensinar conteúdos, pois os pais se não só se responsabilizam pelo ensino-aprendizagem, mas criam um estilo de vida familiar voltado para isso, mobilizando com essa finalidade diversas estratégias, que podem seguir ou não um currículo formal. Nos lugares em que já é praticado há décadas, como nos EUA (desde 1993), há muitos estudos que mostram a eficácia da modalidade tanto nos resultados acadêmicos quanto na socialização (leia mais sobre isso no artigo “E a socialização?”). Assim, se bem praticada, a ED pode até mesmo superar os resultados de uma escola.

ED pode ser simples, economizar tempo e dinheiro. Na sala de aula, quando a professora diz “abram todos na página 30”, ela tem que esperar 25 os alunos encontrarem a página, pararem de conversar ou se distrair com o lápis que caiu no chão para então começar a explicar o conteúdo da página 30. Todo esse tempo que é desperdiçado em sala, em casa é aproveitado e o que leva 4 horas para ser feito na escola, em casa pode levar apenas uma. Assim, sobra muito mais tempo para brincar, ajudar nas tarefas domésticas e fazer muitas outras coisas. Além disso, o dinheiro que uma escola cobraria para manter sua estrutura física, pagar funcionários e encargos, simplesmente pode ser gasto em mais livros, em uma viagem a um lugar histórico, museu ou mesmo economizado para outros fins.

ED é usar o mundo como sala de aula. Não estar na escola não significa não ter acesso ao conhecimento. Pelo contrário, pode significar ter acesso a conteúdos ilimitados. No processo da ED a criança desenvolve o autodidatismo, ou seja, aprende a aprender, se tornando cada vez mais apta para conhecer e explorar o mundo (leia mais sobre isso no artigo “autodidatismo”). Assim, o ambiente de aprendizagem não é artificialmente criado, mas se dá na relação com o mundo concreto, seja na matemática dos livros e cadernos, ou nas prateleiras do supermercado.

ED é uma educação sob medida. Dentro do movimento que luta pela prática como direito ao redor do mundo, existe uma heterogeneidade de posicionamentos ideológicos, políticos e educacionais. Encontramos tanto aqueles que defendem o modelo de Homeschool (Educação Domiciliar) como sendo School at Home (Escola em Casa), ou seja, que defendem uma adaptação do modelo escolar de ensino ao contexto domiciliar (com material didático, currículo pré-determinado, atividades avaliativas, etc.), quanto aqueles que defendem uma posição de desinstitucionalização total do ensino, que se identificam como defensores do Unschooling, proposta que se assemelha ao modelo anarquista proposto por Ivan Illich (sem material didático ou currículo definidos, seguindo apenas o interesse da criança). Por fim, encontramos também muitos meios-termos, ou seja, muitas famílias que trafegam dentro desse espectro, criando seus próprios modelos e métodos (leia mais sobre isso no artigo “Existe fórmula para ED?”). Em todos eles, no entanto, duas coisas caracterizam a ED: respeitar a individualidade da criança – o que significa uma educação menos massificada e mais personalizada, levando em conta o ritmo, dificuldades e potencial de cada um – e transmitir a visão de mundo da família – o que significa respeitar a cultura e religião na qual está inserida, permitindo a ela ser educada em consonância com o que sua família acredita.

Espero que tenha compreendido melhor o que significa Educação Domiciliar. Da próxima vez que alguém perguntar, quem sabe você pode explicar? Até a próxima!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *